lunes, 14 de octubre de 2013

Luis Antonio de Villena: Borges.


Luis Antonio de Villena




























Conocí a Borges ya viejo. Y quizá como otros tiendo a considerar
que el anciano de sonrisa perpetua, aferrado a su oscuro bastón
no debió  conocer la juventud. Es este Borges al que retratamos una
tarde de 1982. El Borges que (con su peculiar acento, su continuo
tentar la ironía) hablaba continuamente de libros y de palabras…
Recordaba un verso de Lucano, traducido por Juan de Jáuregui,
y lo repitió varias veces, una mientras yo lo conducía al lavabo:
“Muere el mar y es cristal su monumento” ¡Caramba qué verso!
volvió a reiterar el mítico ciego, acaso para ocultar lo demasiado
humano inevitable. Como algunos grandes conservadores tenía
muchas proclamaciones anarquistas. Había vivido para los libros
y en los libros. Pero ¿no hubo más? ¿Quién era María, quién su
casi infinita madre, quién aquella Estela Canto a quien dedicó
y regaló el manuscrito minucioso de “El Aleph”? Como le hubiera
gustado decir, Borges era muchos y todos misteriosos, como tú,
casi como cualquiera. Pidió, otra tarde, que le leyéramos un fragmento
de un viejo cuento suyo, que no recordaba. Lo hicimos. Y cuando
surgía la frase  carismáticamente borgeana, decía: “No está mal eso.
¿Verdad? ¡Caramba! ¿A quién se lo habré copiado yo?”. Cuando alguien
le preguntó qué pensaba de quienes decían cosas contra él, acentuó
la peculiar sonrisa indefinida: “¿Qué voy a pensar, ché? Bueno, que
tienen razón, ¿no?” Recuerdo cuando, adolescente, leí el primer poema
suyo que me fascinó, “España”. Recuerdo miles de posteriores lecturas
deslumbradas:  “¿Es posible que yo, súbdito de Yakub Almansur/
muera como tuvieron que morir las rosas y Aristóteles?” Hizo,
con daño oculto, de la ceguera un don y se esforzó en la humildad
de quien sabe con sir Thomas Browne que “el olvido es insobornable.”
Su presencia tranquilizaba, pues era igual a lo que imaginaste
y te gustaba saberlo próximo a Quevedo o a Lugones, cuando
leía con voz exacta: “Detrás de los mitos y las máscaras,/ el alma,
que está sola.”  También ante el espejo en que no podía verse,
resignándose al retrato: “La justa y vasta y necesaria muerte”
Adiós, Borges. Sin usted todos seríamos, en verdad, mucho menos…



Madrid, 27 –IX-2013.


Luis Antonio de Villena (Madrid, España, 1951) es licenciado en Filología Románica. Realizó estudios de lenguas clásicas y orientales, pero se dedicó nada más concluir la Universidad, a la literatura y al periodismo gráfico y después al radiofónico. Además ha dirigido cursos de humanidades en universidades de verano y ha sido profesor invitado y conferenciante en distintas universidades nacionales y extranjeras.
Publicó, aún con 19 años, su primer libro de poemas, Sublime Solarium. Su obra creativa -en verso o prosa- ha sido traducida, individualmente o en antologías, a muchas lenguas, entre ellas, alemán, japonés, italiano, francés, inglés, portugués o húngaro. Ha recibido el Premio Nacional de la Crítica (1981) -poesía- el Premio Azorín de novela (1995), el Premio Internacional Ciudad de Melilla de poesía (1997), el Premio Sonrisa Vertical de narrativa erótica (1999) y el Premio Internacional de poesía Generación del 27 (2004). En octubre de 2007 recibió el II Premio Internacional de Poesía “Viaje del Parnaso”. Desde noviembre de 2004 es Doctor Honoris Causa por la Universidad de Lille (Francia).
Ha escrito y escribe artículos de opinión y crítica literaria en varios periódicos españoles desde 1973. Ha colaborado en numerosos programas televisivos y sobre todo radiofónicos. Actualmente colabora en El Mundo y en Radio Nacional de España. Ha hecho distintas traducciones, antologías de poesía joven, y ediciones críticas.
A pesar de sus múltiples actividades, y de su gusto por la narrativa y el ensayo, cuando le preguntan, no duda en calificarse como, básicamente, poeta.
Además, Villena es noble. Javier Marías -actual monarca del Reino de Redonda le otorgó en 1999 el título de Duke of Malmundo.

viernes, 11 de octubre de 2013

heather thomas reads - april 2013

Leonardo Martínez:Presentación.


VINÍCIUS DE MORAES:OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO.



   
Vinícius de Moraes.


 



E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe:- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.



Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

(1959)

Vinícius y Lula, Planalto, 1979, antes de leer su poema al obrero.

 
Vinícius de Moraes (1913-1980)

miércoles, 9 de octubre de 2013

Leandro Calle: Blasfemo.
























blasfemo 


durante años salí a buscarte
y ahora que no te busco te aparecés en las esquinas
y me mirás con esa cara de silencio

*

los últimos años corría alrededor de un parque
hacía kilómetros en una bicicleta fija
y conseguí que el sudor me limpiara las preguntas

escapaba hacia vos

*

¿sos amigo de Manson?
cuando escribió helter skelter con la sangre de Sharon Tate
¿no te dieron ganas de hacer un tobogán que bajara hacia arriba?
¿o el hecho de que le hubiesen cortado los pechos con cuchillos
indicaba que íbamos a ser amamantados de violencia?
a troche y moche
helter skelter
*

busco a dios en tus ojos
no lo encuentro
tampoco está en la tarde de domingo
descielado
bajo lentamente por tus piernas
y la zarza arde todavía



Leandro Calle (Zárate, 1969) Poeta. Lic. en Letras. Lic. en Teología. Reside en Córdoba. Entre otros libros publicó: Tatuaje de fauno (El Francotirador, 1999); Una Luz desde el río (Alción Editora, 2001 y 2004); Los Elementos (Alción Editora, 2003); Pasar (Educc, 2004); Noche Extranjera (Ediciones del Copista, 2007). El Horla, traducción y edición bilingüe del texto de Guy de Maupassant más un estudio crítico. (Ediciones del Copista, 2007). entonces (Alción Editora, 2010) y blasfemo (Alción Editora, 2013).
Tradujo, Los frutos del cuerpo (Alción, 2012 y editado en Chile por el Centro Mohammed VI) del poeta marroquí Abdellatif Laâbi.
Junto a Kay Reynolds (Fotografía): Almas del Boquerón (Pircas, 2004); Souls of the Boqueron (Pircas, 2005);  Kindheit (Pircas 2006)  y Passer (Editorial Pircas Argentinas, 2008).
Su poesía fue traducida parcialmente al inglés, al francés, al checo y al árabe.
Dirige para Alción Editora la Biblioteca de Autores Marroquíes.

lunes, 7 de octubre de 2013

Paul Hoover: Poemas que podamos entender.





Paul Hoover


















Si un mono conduce un automóvil
por una avenida arbolada frente al mar
y las palmeras a su izquierda son de hojalata
                   no lo podemos  entender.

Queremos poemas que podamos entender.
Queremos un dios que nos guíe,
renombrando las flores y los arboles,
codificando la escena con colores ,

cantando para los invitados como un pájaro llamador.
Queremos poemas que podamos entender,
nada  de borrachos indolentes tirándose lances
al lado de un armadillo, mucho menos la compleja nada

que sólo  llega a ser  una canción,
nada de correr entrando y saliendo de los muros
sobre la lengua seca de una laucha,
ninguna coerción, ninguna chica, ningún mar en movimiento

con  toda su deliberada,  voluntaria velocidad,  acompañándolo a su lado
y tan azul como el agua, dentro de sí mismo y quieto,
ninguna lagartija sobre la mesa transformándose en manos absolutas.
Deseamos poemas que podamos entender,

las huellas de  los dedos sobre el vestido de mamá,
el dolor de los mártires, los científicos.
Por favor, ningún conejo extrayendo
de un sombrero amarillo otro conejo, ninguna espalda tatuada

enfrentando el extenso desierto, no hay  viento.
No lo podemos entender.




Paul Hoover (Harrisonburg, Virginia, 1946). Poeta, ensayista, docente y editor. Sus ultimos libros de poemas publicados Sonnet 56 (Les Figues Press, 2009); Edge and Fold (Apogee Press, 2006); Poems in Spanish (Omnidawn, 2005); Winter (Mirror), (Flood Editions, 2002); Rehearsal in Black (Salt Publications, 2001); Totem and Shadow: New & Selected Poems (Talisman House, 1999); Viridian (The University of Georgia Press, 1997); and The Novel: A Poem (New Directions, 1990). Codirige junto a Maxine Chernoff la emblemática New American writing.





Daniela García: Poemas.





Daniela García





















Lluvia en primavera

Desde mi ventana la puedo ver,
la belleza de los días de lluvia.
Huelo el aroma del ambiente,
Todavía no deja de llover.

Huelo la tierra mojada,
el variado aroma de las flores.
Veo el cielo gris y la lluvia liberada.

El color surtido de las flores es fuerte,
las hojas dejan caer gotas como diamantes,
los sonidos variados forman música,
el viento me trae aromas.

El color verde se enternece,
el granizo cae como perlas.
Las nubes deciden separarse,
el agua esperada ya se hizo presente.

La tristeza del cielo gris desaparece,
cuando un arco iris con el sol aparece.

Música

Naces y fluyes como un río
Invades los sentidos
Me contagias tu brío
Iluminas mis pensamientos

Puedes ser tan suave como intensa,
Tan liviana como densa
Puedes calmar, entristecer y alegrar
¿Qué tantos misterios eres capaz de encerrar?

Eres invisible y capaz de estar presente
Acompañas aunque no te dejes ver
Me pareces tan cercana como inalcanzable
Tan bella como también ausente

Te puedo sentir en todos lados
Me ayudas a levantarme
Cuando la soledad me abruma
Vienes a acompañarme

Noche

Que en tus brazos me reclamas,
que con tu luna y tus estrellas me iluminas,
me borras los miedos y me alivias el dolor,
me ayudas más que el sol

Eres mi refugio
Tu oscuridad suaviza el dolor que el brillo me dio
Eres un paño fresco que calma mi dolor
Quitas de mis ojos el ardor

En ti puedo ver,
Que no todo siempre es sufrimiento
La oscuridad ayuda a ver al corazón
que puede ser más fuerte que la razón

Los ojos pueden dañar
cuando el corazón puede enseñar
puedes ser oscura y fría,
o plateada y fresca.


Daniela García (Buenos Aires, 1991) Poeta. Inédita.



domingo, 22 de septiembre de 2013

Novedad Editorial: Carlos O. Antognazzi.










Carlos O. Antognazzi (Santa Fe, 1963). Ha publicado los libros Historias de hombres solos (Cuentos, 1983), Punto muerto (Cuentos, 1987), Ciudad (Novela,1988), El décimo círculo (Cuentos, 1991), Llanura azul (Novela,1992), Narradores santafesinos (Ensayo, 1994), Apuntes de literatura (Ensayos y entrevistas, 1995), Cinco historias (Nouvelles, 1996), Mare nostrum (Cuentos, 1997), Zig zag (Cuentos, 1997), Road movie (Cuentos, 1998), Inside (Poesías, 1998), Al sol (Cuentos, 2002), Arte mayor (Poesías, 2003), Los puertos grises (Novela, 2003), riverrun (Poesías, 2005), Señas mortales (Novela, Castalia, Madrid, 2005), Triplex (Nouvelles, 2008), Ahab (Poesías, 2009), Interludio (Cuentos, 2010), Leve aire (haikus, 2010), Las estaciones (Poesías, 2012), Sísifo (Cuentos, 2013). Obtuvo, entre otros, los premios «Alcides Greca» 1992 y 2007; XII Premio «Ciudad de Huelva» (España, 2003); VII Premio «Tiflos» Novela (España, 2004); «José Rafael López Rosas» 2009. En 2004 fue declarado «Ciudadano Santafesino Destacado» por el HCM de Santa Fe. Coordina Talleres literarios en Santa Fe y Santo Tomé.


miércoles, 18 de septiembre de 2013

Ricardo Ezequiel Gandolfo: Poemas.





Ricardo Ezequiel Gandolfo
























La Momia en la sastrería


La vieja y olvidada Momia revive floreciente
y, luego de asesinar a un campesino prospero,
dos maestras,
un distraído agricultor,
tres policías y su perro,
retorna a la ciudad de la cual nunca debió haber salido.

La casta noche la recibe con un sonido opaco.
Mientras vaga con paso lento por las calles
tediosamente decoradas
oye (es un decir)
la musiquita de unos tangos tristísimos
saliendo de la radio de una sastrería de barrio.

La Momia piensa
(si tal cosa fuera posible,
no olvidar
que ha estado soñolientamente muerta unos
miles de años)
piensa que esa princesa la metió en un buen lío
y, mientras los pedazos de tela
se desgarran y flotan sucesivamente,
ingresa en el negocio
cuyo cartel de “Costuras a buen precio”
le da la bienvenida suavemente.

El cuarto oscuramente iluminado,
y los ojos brillantes del encorvado sastre
dan la nota.

La Momia piensa
(si se pudiera decir esto. No hay que olvidar
que un cerebro vaciado con agujas y algún líquido secreto
es delicadamente endeble)
“Papiros, cestas de mimbre, Nefertiti
camellos, enormes tumbas
palmeras,
decisivas túnicas de algodón africano,
pirámides elevadas sobre el polvo
de cien mil esclavos,
arpas y astrologías”

Y luego se embute en unos pantalones de pana
en una perfumada camisa de blanquísima seda  ,
en unos mocasines de atildado cuero.

Le basta
ladear la gorra que el sastre
le ofrece para ocultar
dos o tres vendas que escapan reverentes,
para saber que ahora
esta cerrada muerte caerá sobre ti
sobre nosotros,
y que en la dulce noche
nadie estará tranquilo mientras duerme.

Y luego, mata al sastre, incendia
el opaco negocio, se ríe
a carcajadas silenciosas
de la noche y su música
camina por las calles empedradas
convertido en un perfecto caballero
entra en la Bolsa
y allí realiza sus sangrientos negocios
silbando una vieja melodía del Nilo
recordando  a la astuta princesa,
a los hombres con cabeza de perro
y a las mujeres con vientre de serpiente.

                                                        (inédito)


 Variaciones sobre lógica modal amorosa

                                                                                                                                                                                                                               para Elvira Escalante

                                                                                               
Recuérdame en otoño
Es necesario.

En febrero
cuando las lluvias amenacen ahogarnos.
Por el contrario, en julio
olvídame definitivamente y haz una vida nueva.
Ya llegarán los meses decisivos
en los cuales estaremos posiblemente juntos:
el color de los árboles tocando la ventana,
el triste devaneo de los zapatos del cartero,
la desigual contienda de la luna en las tazas de té olvidadas.
Así, la primavera volverá con sus bríos
y te veré con un sombrero rojo
atravesando la avenida.
Por suerte yo seré
literalmente un imposible,
y aunque las telarañas  nos ensordezcan
con su rugido azul
no cruzaré esa calle
no cruzaré
nunca jamás, nunca jamás
haré el esfuerzo de cruzarla.

Al fin y al cabo
Para decirlo todo tus labios siempre fueron contingentes.

                                                       (Bazar Japonés)


Apariciones imprevistas

                                                     ¿Qué es la divinidad si sólo puede
                                                      Llegar en silenciosas sombras y en sueño? 
                                                      Wallace Stevens

Lo percibiste dulcemente,
a una hora difícil de la tarde
entre las 17 y las 19. Estabas sentado
en solitaria meditación con un cesto de frutas
al lado. El humo de los cigarros fingía ser niebla
Pero tus ojos estaban despejados
Allí. En la clara ventana que daba al patio
Viste por un instante a Cristo y a los doce
Charlaban animadamente, algunos comían uvas
Y otros contaban las piedrecitas cercanas
A la pileta. Los gatos parecían ignorarlos
Y el viento había cesado. Quisiste
Hablar con ellos, preguntarles pavadas
Sobre los mares de Galilea. Y sin embargo,
Cuando miraste bien hubo el clamor de la sorpresa:
Pedro parecía más bien tu tío Nicolás, Jesús
Se inclinaba como el portero del edificio vecino,
Santiago reía con la voz de tu abuela, y María
(eso era lo más maravilloso)  era como Carolina
Tu primera novia. Quedaste estupefacto
Unos instantes. Luego, la visión se hizo borrosa
Dejando aparecer poco a poco la santa rita magnífica
Que tu mujer cuida con modales exquisitos y tenues.
Las hormigas reiniciaron su procesión a un Dios Insecto
Que al amanecer también te despierta de tus sueños.

Y en el medio del jardín el sol que todo lo cubría
Suavemente, se llevó las imágenes y la noche.
  

                                                              (Inédito)

Satán retorna del invierno

En las pobladas calles de una ciudad desconocida
Satán vuelve a caer sobre el empedrado austero
Viene del invierno, quiero decir de otras latitudes
Donde el frio es moneda común y allí languidecía.
Al revés de esta urbe, a la que no nombraremos
Aquí el calor es abismal, aquí los cuellos tiemblan
Bajo una lluvia de gotitas saladas; aquí
Satán se siente como en casa, vuelve a cantar
(aun cuando lo hace no demasiado bien)
Y se dedica unos pasitos de baile
(lo cual es decididamente estrafalario)
Y después se va con paso decidido a un templete
cercano. Allí el pastor Rubén Alcides Saranvillo
natural de una comarca  cercana, hace años
invoca a Jesús con voz aguda, haciendo llorar
a multitudes, sana
a los enfermos de sus dolores de columna,
exhorta a pecadores, adúlteros, bebedores de vodka
y de cerveza a renunciar a los placeres prohibidos.
Satán escucha, cabecea y bosteza:
no es el infierno un lugar para estos pequeñuelos.
Cruza la calle. La catedral con elevados coros
lo fascina; por un instante cree estar en el cielo
ya que el gordito sacerdote despliega
páginas del Evangelio como hojas de comics,
invoca a Dios y a tres personas al mismo tiempo,
y luego termina su comentario con una mención
confusa sobre abortos y matrimonios imperdonables.
Satán ríe bajito y luego se aleja pensando en lo difícil
que es hacer entrar en el mal absoluto a esos chiquitines.
Después de recorrer la ciudad aburrido
Satán entra en una sinagoga, donde el rabino bruscamente
barbudo implora letanías en un idioma antiguo
pero que el diablo reconoce al instante y al instante
se duerme. Luego, despierta, con un sobresalto
y piensa que en millones años no han cambiado una letra
de la Ley: le parece, decididamente, un exceso
no apto para la eterna condenación de esos viejecitos.
Cruza la calle y oh sabiduría, oh rezos hipnopómpicos, oh dulzura
Es una oscura mezquita donde se alzan los cantos soñolientos
Invocando al Uno, al Innombrable, al Perfecto
que por gracia de un profeta austero ha proferido
su mensaje ante el Mundo. Satán tiene deseos de reír
ante esos ademanes coreográficos, siempre a las siete
postrándose ante las maravillas de un Paraíso concebido con señoritas
múltiples y un montón de aceitunas y aceites y baños de vapor
y encantadoras bailarinas. Pero aguanta su risa y se retira.
Ya no tiene nada que hacer en cuanto a religiones.
Así que busca y busca en el humano mundo
a quienes torturar por siempre en un infierno luminoso y
terrible. Un lugar,
donde se oyen diariamente los gritos de dolor
hasta el fin de los tiempos.
Pero este afán es – por lo bajo-
inútil; y por lo alto
se reduce a correr por los pasillos
de los congresos, transitar embajadas,
juzgados, comisarías y casas particulares,
pequeños y animados barcitos, casas de familia, burdeles
y en todos encuentra la mediocre intención,
el insulso yo no sabía acompañado de golpecitos en el pecho.
“El mal _piensa Satán_ “ya no es lo que era”.
Se ha vuelto una tontería que se realiza de repente
Sobre sí mismo o sobre otros
Siempre pensando que no era tu deseo hacerle daño
Sino solo divertirte, quizás pasar el rato
En  torturada compañía, quizás es como un juego
Un hobby, un impulso de dedicarse a algo diferente.
Y así, Satán eleva sus oscuras y  portentosas alas
Y parte de inmediato por la ruta
que Dios dejó trazada al escapar también de este planeta.
Y en la tierra plagada de numerosas
y tediosas criaturillas se oye el rechinar de tantas víctimas,
el confiado vertedero de sangre diario y sin sentido
el paciente dolor que hora a hora se infligen los insectos
humanos y en ese horror el corazón se para
los nudillos se ahuecan, la triste flor del llanto
comienza a germinar y las horribles risas
se encienden acompañando el cortejo de difíciles obras
y hombres y mujeres acometen la tediosa, mortal tarea
de vivir en el cielo del goce donde toda eternidad es poca.
   

                                                           (Inédito)



Ricardo Ezequiel Gandolfo (Termas de Rio Hondo, Provincia de Santiago del Estero, l953). Poeta. Ha publicado: Diario de Babel (1980, premio“Coca Cola en las Artes y las Ciencias” cuyo jurado estuvo formado por Olga Orozco, Alberto Girri y Roberto Juarroz y en 2012 dio a conocer Bazar Japonés. 
Poemas suyos han sido publicados en La Nación, Clarín, Tiempo Argentino, El Nuevo Libre (Corrientes) y en la Revista Digital “Adamar” (Madrid). También han sido traducidos al alemán y publicados en Jahrbuch der Lyrik 1996/ 97.Ed. Beck’sche Rehie (1996).
 Ajenos al vecindario, una antología junto a  otros tres poetas tucumanos, Rogelio Ramos Signes, Manuel Martinez Novillo y Maisi Colombo, apareció en el 2009.